Dentro Do Mesmo Time

Dentro Do Mesmo Time

terça-feira, 30 de março de 2010

Com ou Sem

E eu acordo. Deve ser umas onze da manhã. Bebo um resto de vodka que ainda tinha na garrafa. Ultimamente venho notando que a vodka não me dá mais o mesmo efeito. Acho que vou passar a comprar uísque. Não tenho fome. Nem me lembro qual foi a última vez que comi. Talvez ontem à tarde? Sim foi ontem à tarde. Um cachorro-quente na esquina, naquela barraquinha do seu Sinval. Me lembrei porque vi um pedaço de salsicha no que eu vomitei ontem a noite. Não ando nada bem nos últimos meses.

Várias vezes culpo Pedro por esse meu estado de lixo. Porque oras, antes dele eu era até que bem saudável. Tava começando a fazer a tal da macrobiótica. Mas definitivamente a culpa não é dele. A culpa é minha. Eu que me enxerguei nele, eu que procurei estar onde ele estava. Achava que poderia ser feliz ao lado dele. Achava que podia ser seu raio de sol. Hoje percebo que quem precisa de um raio de sol sou eu.

Achava fascinante essa vida de escritor. Sofrer, e produzir. Percebi, com o passar do tempo que disfarço a minha solidão com arte. Estou aqui, falando com vocês. Vocês vão me ler, vão me comprar. Mas só escrevo porque sofro, se não sofresse eu não escreveria. E sofro por amor. E esse meu sofrimento é que me vai fazer comprar a minha garrafa de uísque. Essa metalinguagem ainda me mata um dia.

Que eu vou fazer do meu dia? Não tenho muitas opções. Posso passar o dia inteiro olhando pro teto e escutando música. Maysa? Não, muito old. Amos Lee! Perfeito. A melancolia dela me excita. Engraçado como me sinto feliz escutando música triste na fossa. Parece que elas me levam mais rapidamente ao meu objetivo: chorar. Chorar compulsivamente, chorar de soluçar. E depois disso tudo escrever.

Passei a noite toda ontem chorando e bebendo, e quando eu acabava, começava tudo de novo. A angústia faz parte da minha vida. Sou um ser angustiante, chato e sem capacidade alguma de formatar alguma espécie de relacionamento. Olho agora na minha estante um livro do Caio Fernando de Abreu. “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”. Em minha opinião a sua obra prima. Como eu achei lindo quando li pela primeira vez. Como que queria ser Caio naquele instante. Vi que não é tão divertido. A mesma dor que ele sentiu, a mesma dor que eu sinto. É triste.

Mas o que eu vou fazer do meu dia mesmo? Acho que vou ao bar. Beber. Beber no bar é diferente. No bar você não está só. Tem o dono, olhando pra você. Esperando o momento que você vai armar uma confusão. Tem aquelas garçonetes, não tão bonitas assim, mas com a cara cheia de álcool, pra quem gosta de mulher, dá pro gasto. O bar é divertido. Você testemunha histórias que podem começar no bar, que podem terminar lá. Ou até que começam e terminam no mesmo instante. As coisas ultimamente andam tão rápidas.

Outro dia desses presenciei uma paquera da garçonete, Leda, a da bundinha maior com uma outra moça lá. Moça essa que só descobri que era moça quando um amigo seu chegou e a chamou de Selma. Leda e Selma. Ficaram se olhando. A principio só Selma admirava os atributos de Leda, que ia e vinha de forma que nem se preocupava se era olhada ou não. Tanta coisa pra fazer. Tanto bêbado pra atender. Mas depois Leda percebeu que Selma a olhava, e passou a retribuir as olhadas de Selma. Ficaram assim por meia hora, acho eu. Mas depois chegou esse tal amigo de Selma, que nem sei se é amigo dela mesmo, ou só conhecido. Trocou algumas palavras com ela. Selma se levantou, pagou a conta e foi embora. Selma e Leda poderiam viver uma linda história. Elas poderiam se apaixonar e juntas viver para todo sempre. Mas não viveram. A história delas acabou ali mesmo. Selma nunca mais voltou. Leda continua lá trabalhando. Pode ser que num futuro elas se reencontrem, e possam ao menos conversar. Pode ser que não. Pode ser que Selma tenha morrido.

Uma vez aconteceu comigo. No mesmo bar. Tava sentando no balcão, bebendo vodka. Ao meu lado sentou um carinha, bonito ele. Mas fiquei na minha. Nunca se sabe quem é gay nesses lugares não gay. Mas ele começou a me olhar. Eu olhei pra ele. Ele olhou pra mim de novo. Sorriu. Disse que se chamava Guilherme. Me apresentei. Conversamos, por um bom tempo. Mais de três horas no bar de conversa. Falamos de tudo: do novo filme do Tarantino, de como a chuva deixava Recife uma cidade mais bonita, da Drag Queen do BBB, dos relacionamentos dele que não deram certo, de Pedro.

Tinha até que me esquecido um pouco dele. Por que ele me deixou? Me deixou sem antes mesmo ter começado. Por que eu me apaixono por qualquer rapaz que me dá um pouco de atenção? Pedro. Parecia ser o cara perfeito, que me completava. Enfim encontrava um cara que valia a pena. Só que ele não enxergou isso. Antes mesmo de tentarmos ter qualquer coisa, ele arranjou outro. E está muito feliz, muito bem obrigado. Muito feliz sem mim. E o pior é que fico feliz. Feliz por ele está feliz. Mesmo que seja sem mim.

Preciso me acostumar. Esquecer ele eu não vou. Ninguém esquece o inesquecível. Tenho que procurar outras ocupações. Esse o último conto que escrevo sobre Pedro, que o tenho como inspiração e ponto de partida. Eu vou ter que expulsa-lo mesmo da minha vida. Mesmo contra minha vontade. Mesmo ainda sonhando com ele. Acho que sei o que vou fazer agora. Vou comprar meu uísque. O mercado não é longe. Vou a pé. Não de carro. Quando voltar vou procurar o número de Guilherme, ele me deu naquele dia. Não faz tanto tempo assim, acho que ele ainda lembra de mim. Vou ligar pra ele. Vou beber. Vou escrever, escrever um conto que não fale de Pedro. Escrever sobre um passarinho, talvez. Minha vida não acabou. Tenho que continuar. Com ou sem Pedro. Com ou sem Guilherme. Com ou sem bar. Com ou sem uísque.

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