Dentro Do Mesmo Time

Dentro Do Mesmo Time

quarta-feira, 24 de março de 2010

A estrela, a morte e o momento.

Estou aqui. Ainda estou aqui, parado. Não pisco, meu olho está fixo numa estrela no céu. Está fixo não porque ela é linda, não porque eu admire as estrelas, olho só porque é o único lugar que consigo ver. Aliás, nunca tinha visto essa estrela na vida antes. Era novo pra mim.

Não sei se ainda doí. O rasgão em minha barriga ainda brota o meu sangue. E as minhas tripas também, e também a merda que nela começava a se formar. A facada varou de uma ponta a outra da minha barriga, não tive chances de escapar. Acho que morri. Mas estranho, ainda continuo a pensar e perceber o que acontece ao meu redor.

Vi quem me matou. Mas não importa que eu saiba, infelizmente não consigo me comunicar com quem está vivo. Aliás, a morte é fascinante, não acham? Mais fascinante que a vida. Nunca fui muito notado em vida, mas agora, começa a se juntar uma pequena multidão ao meu redor. Vejo as caras de nojo. Vejo as caras de pena. "Tão novo, com uma morte assim tão cruel" ou "Tão belo, mas agora tá ai, horrivel". Não se enganem, meu sangue, minha tripa, minha merda. Eu sou isso, ou era.

Sei que essas pessoas atrapalham a minha visão. Mal consigo mirar a estrela agora. Se sentir incapaz é foda. Eu sou, agora, o centro das atenções. O brilho da estrela reflete em mim. E eu não posso gozar dessa alegria. Porque agora eu não sinto mais alegria, nem dor. Sou um corpo, morto, talhado de canto a canto da barriga, mas pensante.

Escuto barulhos. Barulhos que vão além das sirenes da polícia. Acho que são trovões. Que morte mais linda a minha, agora está chovendo. A água cai no meu corpo, espalha ainda mais meu sangue pelo chão. O céu clareia. Que lindo. Raios vieram abrilhantar ainda mais o meu momento. Alguns desses clarões são flashs. Acho que vou aparecer nos jornais. Sinto que uma lágrima cai do meu rosto. Meu Deus, consegui sentir algo?

É tão emocionante, é tão triste. Excitante. Um vouyerismo que nunca havia experimentado. Uma verdade tão crua. A única certeza da minha vida. Aquele momento era mágico. Minha pele começava a mudar de tom. Agora estou esverdeado. Devo estar horrivel. Mas tanto faz, minhas fotos devem estar lindas. Será que minhas tripas são bonitas também? Nunca me vi por dentro. Nem verei mais. Logo, logo estarei no IML. Dentro de uma daquelas gavetas geladas. Meu momento de glória acabou.

Não vou ver mais aquela estrela que refletia seu brilho em mim. Nem aquelas pessoas que admiraram a minha morte. Ainda não fui pro Céu, nem pro Inferno. Nenhuma autoridade celestial o demôniaca se apresentou a mim. Será que não existe? Ou será que também fui esquecido? Não importa. Agora vou curtir cada milimetro da minha gaveta. Do meu corpo nú e aberto exposto ao frio. Em breve vou congelar. Em breve vou pra debaixo da terra. Não vejo a hora. O meu sonho no momento é ser devorado pelos os vermes que em breve vão brotar do meu corpo. Meu sonho agora é apodrecer, e quem sabe, assim irei ficar ao lado daquela estrela que conheci depois de morrer.

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